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E a vida continua
Pessoas morrem ao meu lado, assaltos a mão armada, carros desgovernados, gritos de desesperos, crianças brincando no medo e casais namorando no meio da multidão que cerca o prédio depois do suicídio de uma garota de 19 anos. Mais um dia normal.
No outro dia leio as notícias, ouço os comentários abismados dos interessados pela morte da tal garota (esse é o prazer pela morte) que por sinal era muito bela com seus cabelos loiros e lisos e um par de olhos azuis. Realmente é triste, é anestesiante ver essas cenas, mesmo apenas na minha mente, imaginar isso é trazer à tona a dor talvez semelhante sobre aquele momento “comum” nessa vida que vai passando pela janela.
Mais uma pessoa morta passa caminhando em minha frente, ela até tenta sorrir, porém a beleza da felicidade em sua vida está engessada pelo relógio do tempo, está morna diante dos fatos, diante da TV, que noticiou a morte da melhor amiga. Ela está paralisada como aquele corpo caído no chão.
A morte não veio quando o fôlego cessou mais sim no instante onde desistiu-se de viver, de acreditar nessa vital experiência, a qual, pouquíssimos sabem aproveitar. O morto não era mais aquele corpo que esfriava na calçada do comércio, mais sim aqueles cujo sentimento estava no necrotério das almas. O cadáver em prelúdio sobre os olhares mórbidos, nada mais era do que a execução final daquilo que a garota de 19 anos “vivia”, era o reflexo de uma estrada sem sinalização, sem fim.
Logo depois dessa normalidade anestesiante, cada um toma seu ritmo, lamentando mesmo que de mentira essa triste realidade popular. Agora a vida continua. Casais namoram, crianças brincam, os carros continuam a passar pela avenida principal e motoristas continuam bêbados sem respeitar o sinal. É assim, tudo continua em seu perfeito estado, não existe mais semáforo, não existe mais o “pare”. Não existe mais o “pare” para a essa multidão tão curiosa pela dor, não existe mais o “pare” no topo de um prédio, não existe mais o “pare” para aquela menina estirada no chão. Nessa obsolescência perceptível os gritos vão ficando cada vez mais ensurdecedores no seu silêncio e a ironia cada vez maior.
A vida continua. Mergulhada no receio de mais um dia normal.
Escrito por Lá de fora às 21h39
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