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O disfarce da miséria Segunda-feira de manhã, tudo começa novamente e com o mesmo gosto de sempre, as mesmas vozes me chamando, o mesmo abismo crescendo na sociedade, a mesma degradação moderna, enfim; de volta à mesma semana. E me aconteceu um fato incômodo, aparentemente nada de mais, porém incômodo, isso a meu ver.
Quando sai de casa para trabalhar logo na esquina me deparei com um senhor, não aparentava ser tão velho, meia idade eu acho, o qual estava catando garrafas, papelões e restos do que sobrara do baile da última noite no buteco ao lado. Isso não é novidade para nenhum de nós; pessoas sobrevivendo da miséria e na miséria, no entanto o que me deixou incomodado com tal situação foi a saturação que tudo isso vem me causando durante todo o sempre. Como disse, tal fato é um clichê, seja de manhã, tarde ou noite. Há sempre alguém ali catando restos cuspidos por outros. Fiquei lamentando, não que funcione, mas parei pra pensar na mediocridade que existe clara aos olhos e tão enfurnada em nosso ego miserável. Será aquilo o último ato de sobrevivência, de busca pelo pouco que seja para matar a fome, ou é somente masoquismo da parte dos infelizes cidadãos da pátria menos privilegiados pedindo um pouco de atenção à suas causas? Parece que estou dando voltas em círculos, apenas regando o mar, mas não. Quantas segundas-feiras, quantas senhoras, senhores, crianças nos viadutos e palácios urbanos serão necessárias para entender que a miséria faz parte de nós, que é uma lepra subindo pelas pernas tomando todo o corpo? A culpa nos corroe, mas depois passa com o conforto sorrateiro de um bom sofá somado a barriga cheia. A lágrima que esboça cair dos olhos logo é enxugada pelos ternos engomados. Oh, é tão belo a tristeza que sentimos, nos enchemos de vigor por um amor cínico e corriqueiro aos humildes. É horrível ver a criança no sinal fazendo malabarismo para ganhar um trocado, então nós fechamos os olhos e damos a esmola. Antes até era uma esperança de salvação, mas agora é o financiamento do enterro dos desempregados, dos moradores de rua, da criança sem escola, do menino circense. Quando me pego numa situação dessas como hoje, fico sem ação. Infelizmente creio que não será mais preciso falar ou contrariar estas coisas, pois lá no fundo até achamos bonito: “Olha que belo e honesto vender lixos em troca de pão, esse é trabalhador!”. Tive vontade de perguntar para aquele senhor se ele via alguma glória na posição em que se encontrava. É a pobreza maquiada de virtudes. Com certeza tenho comigo que a honestidade está além da função, está no “ser” honesto e coisa e tal. Porém os olhos daquele homem de cabelos brancos se protegendo do sol mostraram uma aceitação mórbida e secular, não refletiam nada tão belo assim. O fato é que agora a miséria não é apenas a velha doença de uma nação riquíssima com má distribuição de renda e pelegos donos do poder, é também um “estilo” de vida, um refúgio colateral para a sobrevivência nessa miséria disfarçada.
Escrito por Lá de fora às 21h27
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