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Os lados de um alguém Não sei por onde começar, nem sei o que dizer, nem o que falar desse estranho que me olha do espelho como se me conhecesse e como se a qualquer instante fosse embora para nunca mais voltar; mas claro, voltar para que e por quê? Para ver rostos tristes, lágrimas caindo, o chão sendo feito de cama, ou ajudar a comer as migalhas compartilhadas com os cães imundos? Por que o estranho voltaria? O meu estranho não é daqui, essa pessoa não se compraz com isso "tudinho" com essa "vidinha" boa, e assim como seu pseudonome, para ele o resto também é estranho; acaba tudo ficando desgastante, me corroendo por dentro, a ponto de ter que gritar de raiva por todos os horrores alheios e um único suspiro. Os dias estão se tornando drogas injetáveis, diretas ao ponto; tendo em sua fórmula a calmaria da anestesia com um veneno cruel e mortal, nada mais assustador, ficamos sem escolhas e morremos pouco a pouco para darmos lugar ao monstro do nosso interior, um monstro estranho que insiste em ir embora, mas sempre volta alucinado por não achar a saída pra casa. E já que não está em casa, o monstro tem que atacar procurar sua vítima, mesmo que esta seja ele mesmo. Vejo minha pessoa encurralada nesse labirinto sem nexo, logo me derreto pelo prazer da dor, sede de sangue, me esqueço de todo sofrimento humano para provar da carne de cada um, sem dó nem piedade deixo meu anjo mal atacar só uma vez, uma "veizinha" só, é preciso saciar esse doce deletério. É como a droga, eu sei, vicia e faz mal, pode até me matar, mas necessito satisfazer a eloqüência da minha mente, quebrar as correntes que prendem o meu eufemismo, esquecer as palavras bonitas, e pisar nas flores de um jardim mal cuidado pela minha falsa bondade. Depois dessa tônica sádica e romântica o meu cruel cidadão do bem parece estar cansado e precisa descansar, a matança foi grande, e a sensação de um "quase" ódio já passou, só resta saber se o meu outro lado, aquele lado legal, simpático, generoso e cheio de lirismo, ainda está incorruptível, puro como antes. Será que os dias o tornaram monstro também e o fizeram perder o Amor a Paz, a última gota de esperança no seu poço sem fundo? Será que vou ter que fugir dele também? Talvez eu não tenha notado, mas já estou fugindo, como todos andam fazendo ultimamente; fugindo do seu monstro, de si mesmo, se escondendo em suas próprias desculpas, tão esfarrapas quanto suas poucas verdades. A crueldade da ignorância não me deixa enxergar que o monstro apenas dorme, e dorme com um dos olhos bem abertos, atento a qualquer sinal de movimento, por isso meus gritos continuam mudos, para não acordá-lo novamente. Surge um receio dentro de mim, pois tenho certa simpática por esse cara estranho, sua estrada, caminho e saída é a mesma que a minha; quando coloco as mãos em meu peito ouço seu coração batendo, o som ecoando no porão de minha alma, ao mesmo tempo se faz silencioso e sombrio, é de arrepiar. De qualquer forma não posso dizer que ele é mal, porém por ironia também não posso dizer que é bom, somente a luz em uma sombra pode exclamar alguma coisa; no entanto infelizmente ainda sinto como se esse estranho me conhecesse.
Escrito por Lá de fora às 14h30
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