A vida contada ao acaso 

O Sinal fecha, os carros param. Uma pedestre atravessa fora da faixa e vem em minha direção, nesse momento olho fundo nos olhos dela e tento imaginá-la daqui a alguns minutos, o que a estará esperando? 

Uma moça um pouco fora do peso, ou melhor, fora dos padrões estereótipos da moda, com seus passos rápidos antes do sinal abrir novamente, carregando consigo sacolas e fumando um cigarro que talvez seja para anestesiar a dor de uma jornada sofrida, ou talvez esconder algo, acho que o que a espera não é nada agradável, uma família cheia de problemas, um marido bêbado, um filho doente, uma louça suja para lavar, ou casa para limpar. 

Algo me diz que depois desses instantes nada será tão legal para ela, na verdade isso está refletido nos espelhos de seus olhos. E eu continuo minha caminhada.

Vejo um casal numa moto, passando entre os carros com certa pressa. Minha mente já começa a maquinar as situações adversas que os aguardam, acho que estão voltando de um passeio, pois mochilas típicas de turismo acompanham a moça que se segura atrás do rapaz.

A vida se faz incerta para eles, a cada giro das rodas da motocicleta algo pode mudar, não sei, nada é muito concreto, mas me imagino em seus lugares, tantos problemas, tantas ilusões e decepções corroendo suas almas, e essa tal viagem fosse apenas para tapar um buraco deixado ou para curar a ferida depois de uma briga.

Mas eles passam, mesmo com o sinal fechado vão embora. Eu prossigo com meus passos curtos e olhares curiosos. O sinal abre e os carros saem desesperados, um comportamento comum as 6 da tarde.

Um carro por pouco não bate num caminhão, o que já é o bastante para os motoristas trocarem alguns palavrões e ficarem irritados com o mundo. Me coloco na mente do tal caminhoneiro que responde ao xingo defendendo sua razão.

Imagino que o dia não foi fácil para esse pobre homem que luta pelo sustento da casa e de seus três filhos. Mas ele ainda está sorrindo, pois a ânsia de voltar para a família e descansar nos braços da mulher é muito maior, ela já prepara a janta para o marido trabalhador e os filhos aguardam com saudades o afago do pai. Ele tem bons motivos para voltar feliz para casa.

Conforme vou andando vejo como de costumo numa avenida movimentada, pessoas passeando de um lado para outro, logo passa por mim um jovem se exibindo pela paisagem urbana, com pinta de garoto pit-bul; na verdade uma aparência fingida, o típico cara que sente na pele a vida de ser o que não é, de alcançar uma postura sem valor. Até parece o dono do pedaço, ou melhor, da avenida, porém se esconde em duas pessoas, uma submetida à outra, uma tentando tapar o erro ou a qualidade inferior da outra. Mas ele não é um garoto de TV, e depois desse passeio ao fim de tarde voltará para casa sem ao menos ter o seu perfil moderno notado por alguém.

Não tenho muito o que pensar dessas criaturas, a situação é sempre a mesma. Continuo, e no bar da esquina observo alguns rapazes, com suas "loiras geladas" nas mãos, lá o assunto deve ser futebol e mulher. Já na cabeça daquele outro escondido na última mesa o pensamento é de se afogar no seu copo etílico, tentar matar a sua dor, suas tristezas e solidão de um alguém que até algumas semanas atrás vivia com a esposa e com sua filha de 3 anos. E mesmo depois de um porre sua cabeça continuará tão pesada quanto antes e seu coração estupidamente gelado. Agora o silêncio é o seu amigo, sem ninguém para lhe acolher, e quando chegar em casa, somente pedirá para um novo dia começar, a ressaca passar, e voltar amanhã ao trabalho como se nada tivesse acontecido. 

Lamentável, ele é tão novo; mas sou otimista, tento imaginar uma outra situação para sua vida. Afinal, tudo isso que estou dizendo pode ser diferente, pode ser bem melhor; são frutos da minha imaginação. 

Na verdade nunca saberei o que a vida reserva para cada um. O que nos espera? Realmente não sei, por isso fico imaginando. Vejo mais um sinal vermelho, carros parados, pedestres atravessando a rua; olho no fundo dos olhos. É mais uma história pra contar.



Escrito por Lá de fora às 22h53
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