O olhar de Sofia

 

Luigi, jovem, visionário, idealista, com um punhado de idéias boas. Um cara acima de tudo esperançoso, até mesmo sendo utópico em alguns momentos, entretanto, isso não o preocupa, vê o lado bom das coisas. Típico sonhador.

 

Conhecido no povoado rústico pelos cuidados ao pai, seu único companheiro, e vice-versa; cresceu ouvindo que a vida é semelhante a uma flor, ao qual precisa sempre ser regada, para que o Amor cresça com raízes profundas. Palavras ditas pelo velho poeta com um sentimento nostálgico dos bons tempos vividos ao lado de sua amada e falecida esposa. Com esse legado de romantismo enfático em exageros, Luigi procura aplicá-lo em tudo.

 

Não em vão, em suas idas e vindas ao trabalho, não passa despercebida uma garota de família simples, sentada naquele banco de madeira em frente a uma casa humilde, seguindo a rigor alguma leitura (provavelmente poemas). Olhar feminino, misterioso, quieto, dizendo muitas palavras sem um som sequer, um ar doce e meigo capturados pela aguçada forma de percepção vinda de Luigi.

 

Pelo seu interesse por descobrir mais e mais dessa instigante menina, daqueles sublimes olhos, Luigi começa a passar mais perto da casinha cercada de madeira, mas com vista suficiente para capturar todos os detalhes de um rosto jovem e puro, uma visão única, metamorfose de seus sentimentos, isso o induz ao entusiasmo de fazer 8 vezes o mesmo trajeto, a qual precisa apenas de 2, ida e volta do trabalho.

 

Um visionário nunca deixa de lado a vontade de buscar seu desejo, sua flor, aquela outrora contada pelo pai e poeta conselheiro. Decidiu então descobrir mais sobre os traços fascinantes e delicados da garota, a qual conhecia apenas de uns poucos olhares caminhando paralelo ao casebre.

 

Certo dia, nessas idas e vindas, que foram ficando muito mais constantes, Luigi encontra em frente a tal casa, um papel, posto cuidadosamente embaixo de uma pedra. De imediato, lê uma mensagem, escrita de certa forma apressadamente: ”Uma flor que morre de sede!”. Ele olha para o lado, a ver se encontra a garota, sentada no banco da varanda ou um outro alguém. Mas não há ninguém, somente um vazio. Guarda o papel no bolso, com o maior dos seus carinhos e continua a caminhada rumo ao arado.

 

Como de costume ao final da tarde, antes de voltar à sua casa para um merecido descanso, ele passa 4 vezes em frente ao casebre, em busca de algo concreto, ou alguma coisa que desperte ainda mais a curiosidade sobre ela. Somente na ultima vez, vê a bela moça, já levantando do banco, atendendo ao chamado da mãe pelo nome: “Sofía, Sofiaaa, entre!”. Aquele nome para Luigi ecoa como voz incrivelmente encantadora em sua mente. Pensa consigo: ”Sofia, a flor a ser regada. Sofia.”.

 

Na manhã seguinte, lá está ele, escondido atrás de uma árvore próxima a casa, todo disposto a cortejar Sofia, mesmo de fora, de uma maneira incabível a qualquer um, mesmo que com apenas os próprios olhos. A labuta o chama, todavia o frio na barriga o encoraja, e espera como quem não quer nada. Sofia vai para a varanda da casa, senta-se e como de costume continua sua leitura, intercalada com os olhares de Luigi. E de repente Sofia se levanta do banco e vai rapidamente até o improvisado portão, Luigi, já não mais escondido contempla um rosto tão meigo, uma flor ao cheiro das águas, com um olhar tão profundo, impossível de ser medido nem pela imensidão dos mares, um olhar que ao poucos faz crescer ainda mais o frio em suas barrigas, um sentimento recíproco, outorgado pela descoberta de todas as belezas sem mistérios, no olhar de Sofia.

 

Nos poucos segundos decorridos e marcantes, ouve-se uma nova voz, ao fundo: “Sofia, Sofiaa, entre!”. É a mãe da garota, que completava: “Venha menina, Pablo logo estará aqui. Seu noivo não gosta de vê-la de qualquer jeito, e muito menos aí fora. Venha”. Sofia corre para dentro, aumentando a distância entre eles ao atender o chamado da mãe.

 

No mesmo instante Luigi volta a seu caminho, talvez um pouco atrasado, porém carregando a perfeição de tal olhar.

 

“Ah, aqueles olhos. Eu os aceito de qualquer jeito” diz ele.

 

A cada instante, a cada passo dado pelo jovem visionário e utópico cresce ainda mais o desejo de voltar e regar aquela flor, pedindo água para não morrer. Mas agora ele sabe, infelizmente, o esperançoso e idealista sabe. Está tão perto, mas está tão longe.



Escrito por Lá de fora às 00h41
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Visões de um olho nu

 

Há dias em que a vontade de um bom desabafo exerce uma força sobrenatural em minha mente, de uma maneira intensa e até mesmo cruel. Talvez essa vontade seja a de entender algo cujo estamos a procura, mudar nosso norte. A hora de explicar o inexplicável, achar sentido em um mundo ao qual não faz sentido, onde secou a última gota de coerência.


Observar, como quem não quer nada, silencioso como as nuvens, sutil como um leão antes de um ataque impiedoso em todas as suas dúvidas e supérfluas indecisões. Feito de água e barro, construído com as mãos de meus próprios olhos, de toda a visão ultra-ocular de alguns poucos raciocínios, somado a toda existência inimaginária ou não.

 

Monta-se um quebra-cabeça de figuras reais, fatos pertinentes que antes de tudo, antes de se assentarem como mais um ato insano e humano, passam a frente das vistas grossas e rancam boas e poucas palavras, ditas relaxadamente daqueles sentados na varanda, gozando de mais um filme real, do outro lado da rua.

 

Seqüências incessantes de erros e acertos, a perfeição, de uma vida medíocre. Personagens montados em um enredo desfigurado, precedido pela intenção de tentar sobreviver uma vida quase morta. Morta em nosso piscar de olhos, onde são capturadas todas as “façanhas” e “magnitudes” expostas ao ar livre, todas as frutas e melancias lançadas no mercado de valores pouco duráveis; uma imoralidade vizinha aos bons costumes, virgem de inocência. Mas o pior de tudo é que deletamos os fatos friamente, enganando outra vez uma consciência já mórbida, cansada e sem escrúpulo, sufocada pelos seus próprios gritos.

 

A distância entre o certo e o errado, o Amor e o Ódio, não existem mais, foi reduzida, num caminho paralelo. A moralidade, já é um grande peso sem valor, palavra velha de um vocabulário quase esquecido, não lido, apagado, engasgado, um doce amargo, longe da digestão.

 

Os sonhos agora nada passam de maridos traídos e sem amor, sugados pela incompaixão de suas lentes, suas meninas. Regidos pela suja mentira da realidade, o veneno manso pra calar qualquer voz de mudança.

 

Vidas totalmente baseadas no dia de amanhã. A realidade dita é, mera desculpa pra montar seleiros de poupanças, assegurando ainda mais a própria segurança. Mas qual a segurança esperada? Qual o motivo levado a um medo tão grande do que há de vir? Isso é o medo do depois de hoje, visões focadas a compreender uma cega e complexa maneira de viver, dita como simples e normal pelos amantes dos óculos escuros, aqueles que ainda estão sentados na varanda, e podendo fingir não ver.

 

Lamentavelmente estamos cruzando dias onde o crucial, é, o que se tem ou pode ter, e não o que realmente pode ser vivido sem a hipocrisia de uma subvida, formatada a uma linha de produção. Começo, meio e um fim de uma forma ou de outra sempre igual, nas visões de um olho nu.



Escrito por Lá de fora às 05h38
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